14 de julho de 2015

O anúncio da Mariposa.




Resiste o sonho
como um cordão
por suas extremidades
tencionado.
Era ele o abismo negro,
o mistério akáshico
no grande útero da noite.
Desperta o diálogo fecundo.
Prenúncio de um movimento.
Epitáfio de tudo o que é vivo,
que, meramente por viver,
ora se ergue,
ora se dissolve.

“Como chegaste até aqui?”
– indaga a Rendeira.

“Saltando os muros,
alcancei os telhados
das Moradas dos homens.
ouvi um barulho de guizos.
Segui-o e cá estou.”
– responde altiva.

“Muito embora,
parecias dormente...”
– insinua o aracnídeo.
“Vi teu sono.
Tremulavam as notas agudas
de um flautim barroco.”

“Meu sono não era profundo.
Repousava, apenas.
Dispersada a inquietude impiedosa
dos Centauros filhos de Íxion,
retorno ao meu posto,
o Alto do Colina.”

“O que meditavas em tão leve sonho?”

“Dos desejos e das vontades
que me abrigam neste mundo.”

“Qual é o teu desejo, Anjo Lupino?”

“Aninhar-me nos braços
do Homem que amo.”

“E a tua vontade?”

“Rastreá-lo. Alcançá-lo. Detê-lo.
Oferecer-me por refúgio.
Devorar-lhe as carnes
e sorver dele o caldo sagrado.”

“Então queres atraí-lo a ti.”
– conclui perspicaz.
“Não aborrecerás a Mulher?”

“Ela tem procurado
a solitude das letras mortas.
De que servem os símbolos,
se não se aproveitam
os instantes dadivosos
que a vida presenteia?”

“A vida é traiçoeira.
Oferece toda a sorte
de distrações e prazeres
para fiar a atenção,
enquanto aciona o gatilho
para deflagrar a armadilha.”

“A vida é dádiva
que espera em silêncio.
É necessário abrir os olhos
e tomá-la por direito.
Os gravetos e tocos velhos
caídos no chão
educam a acuidade.
As pedras falam aos pés.
Os espinhos e os mourões
tornam a todos resistentes e rijos.
Viver não pode ser
simplesmente vicejar.”

“É justo romper a crisálida
e quebrar os muros do silêncio?”

“O silêncio já fora quebrado.
A Mariposa está pronta!”












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